A cada três pacientes novos que entram no consultório, dois dizem: “sou viciado em doces” e por isso não conseguem manter uma dieta. O que muitos não sabem é que, além do aspecto comportamental da compulsão, o doce causa uma dependência química.

A indústria de alimentos e bebidas desenvolveram uma série de produtos que ativam o sistema de prazer cerebral, geram consumo excessivo na ausência de fome e o descontrole alimentar. Alimentos ricos em açúcar, gordura e sal geram mais do que outros alimentos emoções positivas que aumentam a motivação para obtê-los, ou seja, ingeri-los é recompensador. Nosso organismo desenvolveu um apetite particular por eles, pois garantem maior disponibilidade de energia como o açúcar e a gordura. Esses componentes, quando combinados e acrescentados em maior quantidade à comida, direcionam o consumidor a comer na ausência de fome, não enjoar e lembrar-se com mais facilidade da sensação prazerosa a ponto de preferir aquele produto entre outros

Alimentos ricos nesses ingredientes podem manter o seu efeito estimulante por um longo período através da liberação mais prolongada de dopamina. Estudos em animais mostraram que a liberação desse neurotransmissor não sofre o processo de habituação quando alimentos altamente palatáveis são ingeridos em relação àqueles menos palatáveis. O organismo vê vantagens na ingestão desses alimentos em relação a outros, e não se habitua, favorecendo o consumo sempre que há oportunidade.

O açúcar também retarda a liberação do neurotransmissor acetilcolina que ativa a digestão e absorção de alimentos.  O pico de acetilcolina ocorre no final de uma refeição e seu retardo aumenta a quantidade de alimentos ingeridos.

Estudos comprovam que os mesmos circuitos cerebrais que ocorrem em dependentes químicos são ativados pela ingestão de açúcar. Ratos alimentados com açúcar desenvolvem compulsão alimentar periódica, tolerância (a quantidade ingerida aumenta com o tempo), demonstram aumento do consumo após um período de abstinência (o que mostra sintomas de privação); e exibem sinais de abstinência semelhantes aos das drogas (bater de dentes, tremor nas patas dianteiras, e sacudir a cabeça). Esses achados demonstram que esses animais tendem a ingerir em maior quantidade alimentos palatáveis para que os níveis de dopamina atinjam o nível normal, semelhante ao efeito descrito para dependentes de drogas.

Sinteticamente, há uma base cientifica sólida para a afirmação que seres humanos que apresentam avidez por ingestão de açúcares e alimentos processados possuem alterações nos centros nervosos e neurotransmissores semelhantes às descritas em dependentes químicos. Estratégias que visem drásticas reduções de peso, dietas restritivas ou mesmo cirurgias bariátricas que não levem em consideração a presença possível de vício alimentar e incluam o tratamento deste distúrbio, terão pouca ou nenhuma chance de sucesso em longo prazo.

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