Li esta semana uma reportagem na Revista Super Interessante que me fez constatar, mais uma vez, como é importante enxergar a obesidade de forma multidisciplinar. Nunca imaginei que o fato de termos uma grande diversidade de bactérias no sistema digestivo poderia influenciar no emagrecimento!

Segundo a matéria nosso sistema digestivo tem 9 metros de cumprimento e lá existe o que alguns pesquisadores chamam de “segundo cérebro”, com meio bilhão de neurônios e mais de 30 neurotransmissores. Tudo isso para controlar a extração de energia dos alimentos. Mas não é só isso: os neurônios da barriga também podem interferir no cérebro e afetar comportamentos e emoções.

No sistema digestivo também vivem 300 espécies de bactérias. Elas que sempre foram associadas a infecções são, em sua maioria, fundamentais para o organismo. Um homem de 1,70m e 70 Kg, por exemplo, possui aproximadamente 30 trilhões de células humanas e 39 trilhões de bactérias. Ou seja, seu corpo contém mais células não humanas do que humanas.

A maior parte destes micro-organismos vive no sistema digestivo e ajudam na digestão dos alimentos, mas também podem provocar efeitos surpreendentes. Em 2013 cientistas da Universidade da Califórnia realizaram um experimento e recrutaram 36 voluntárias. Elas foram divididas em 3 grupos. O primeiro tomou iogurte com 4 tipos de bactéria ao longo de 1 mês. O segundo consumiu uma bebida que tinha gosto de iogurte, mas não tinha estas bactérias. E o terceiro não tomou nada – manteve a dieta de sempre. Os cérebros destas mulheres foram analisados antes e depois desta experiência e o resultado foi claro: as bactérias modificaram regiões que processam sensações do corpo, emoções e até funções cognitivas. Os cientistas concluíram que alterações no sistema digestivo provocam alterações no cérebro. Eles ainda estão tentando entender de que forma isso acontece, mas ficou provado que a barriga realmente influencia na cabeça e, qualquer pessoa que já teve dor de barriga de nervoso sabe que o inverso também acontece. O médico Carlos Francesconi confirma na reportagem que, de fato, trata-se de uma via de mão dupla e diz que esses processos são influenciados por bactérias que exercem um papel regulatório, como se fossem órgãos a mais. Qualquer modificação nesse pool de inquilinos do corpo pode provocar um desequilíbrio e causar várias doenças.

Pesquisadores descobriram que ratos que tem maiores níveis de lactobacillus e bifidobacterium no sistema digestivo são menos ansiosos. Há indícios que o mesmo ocorre nas pessoas. Fizeram um estudo no ano passado com 45 voluntários, onde deram estas bactérias para metade do grupo e para outra metade não. As pessoas que ingeriram estas bactérias tiveram níveis 50% mais baixos de stress. Também apresentaram respostas mais otimistas e menos ansiosas em testes psicológicos. Outros estudos já encontraram relação entre a falta de lactobacillus e doenças como depressão e anorexia. Não se sabe ainda se esta diferença na população de bactérias é a causa ou a conseqüência dessas doenças.

Em 2009 um estudo realizado na Universidade Washington começou a desvendar a relação entre bactérias e obesidade. Ele analisou o sistema digestivo de um grupo de gêmeas com uma característica bem peculiar: em todos os casos uma irmã era obesa e a outra não. Depois de analisar as bactérias intestinais das 154 voluntárias, os pesquisadores concluíram que as irmãs obesas tinham a flora intestinal menos diversa, com menos quantidade de bactérias. Segundo experimentos realizados com ratos a chave está na diversidade de bactérias: ratos gordos só emagreciam quando recebiam 54 tipos de bactérias diferentes.

Para o médico Martin Blaser da Universidade de Nova York o desaparecimento do micróbio H.pylori no nosso organismo pode ser o principal responsável pela comilança exagerada. Até 1980 este micróbio era comum no estômago dos americanos e, a partir do uso cada vez maior de antibióticos, se tornou raro. Segundo ele, é isso que pode estar fazendo as pessoas comerem mais e engordarem, porque sem essa bactéria o sistema digestivo não dá o sinal para a pessoa “fechar a boca”.

Não imaginava o quanto as bactérias podem ser benéficas para o nosso organismo, de forma a influenciar o emagrecimento e as emoções. Ótimo artigo para desmistificarmos a visão de que elas representam infecções ou precisam ser combatidas! Será que no futuro os medicamentos serão comprados no supermercado em forma de iogurte?

Fonte: SUPERINTERESSANTE. São Paulo: Abril, edição 362, julho/2016. 24 p.