O jogo do Pokemon Go chegou com tudo no Brasil inclusive no meu consultório! Ontem atendi uma jovem que vem tentando emagrecer há tempos e ela relatou que este jogo a obrigava caminhar uma média de 5 km diariamente. Justo ela que nunca havia encontrado prazer em nenhuma atividade física, achou uma forma de se mexer.

Como não sabia as regras do jogo, cheguei em casa e pesquisei mais sobre o assunto e descobri até um tour em SP para caçar Pokemons. Curiosa esta febre! E, de fato, pode estar ajudando alguns a vencer o sedentarismo e até a socializar. Mas nada é uma coisa só: o jogo, no caso desta paciente, pode até facilitar seu emagrecimento, mas também a atrapalha na medida em que a mantém na zona de conforto. Sua maior dificuldade é ser notada, é aparecer, é se mostrar. Ela não se olha no espelho, é crítica com sua aparência e relata que, na rua, não gosta de andar olhando para as pessoas. Prefere olhar para o chão e agora achou a “desculpa perfeita” para desviar o olhar para o celular.

Mas será que o jogo é o grande vilão? Claro que não, uma vez que escolhemos como nos relacionaremos com ele. Enquanto representar mais uma diversão, não apresenta grandes ameaças.  Ele passa a ser um problema quando usado excessivamente e se torna A ÚNICA diversão ou uma fuga. No caso desta paciente, se analisarmos mais superficialmente, o Pokemon até parece meu aliado no processo de emagrecimento dela. Mas quando consideramos sua história e queixa, ele representa uma forma que ela encontrou de não enfrentar suas dificuldades. Graças ao jogo se abstém de relacionamentos reais e, assim, evita se mostrar e aparecer para o outro. Permanece na sua zona de conforto e cria um ciclo vicioso: quanto mais se isola, menos precisa se cuidar. Quanto menos se cuida, mais desgosto tem frente sua imagem no espelho e mais seus prazeres se limitam a jogar e a comer. Quanto mais engorda, mais tem medo da rejeição e mais vive numa realidade virtual. E assim o ciclo se retroalimenta!