Sábado de manhã talvez seja a melhor hora do melhor dia da semana. O quê fazer quando há nada para fazer? Vou para Barra de Guaratiba e curtir a Marambaia. Chegando lá, aquele calor, aquele mar, tudo muito bom. A covardia começou quando colocaram um espumante gelado na mesa. Depois veio uma casquinha de siri e mais outra. Quando me dei conta virei uma nova baiana e entrei no cuscuz, acarajé e abará…fechei o dia comendo um Oblivion, aquele sorvetão do Outback.

Existem bases científicas sólidas que nos permitem afirmar que os prazeres da mesa são armadilhas do diabo. Está na Bíblia, Eva não comeu uma jaca para ser expulsa do éden, foi apenas uma mordiscada na maçã. Isso é muita covardia. Passa-se a semana inteira vigilante, para num gole de rosé tudo ir abaixo. Então qual é a solução? Não beber? Bem, quando me privar de um espumante num lugar agradável, vou questionar se vale mesmo a pena continuar vivendo. Se nos cortarem o vinho, qual será o próximo passo? Tudo tem limite e este é o meu. Não ligo se ver uma garrafa no freeshop ou em qualquer outro lugar, o que me dá vontade de beber é o ambiente, ir para uma praia idílica e negar um cava rosé deveria ser crime tipificado no código penal. Ultimamente tenho feito um esforço espartano para ter uma dieta regrada. Sabemos que não há problema de tomar uma ou duas taças de vez em quando, o problema é que o álcool me transforma em outra pessoa e essa pessoa come pra caramba. E repare, a fartura de álcool sempre vem acompanhada da fartura de comida, vide casamentos, as mulheres passam civilizadamente pela mesa de docinhos no início da festa. Depois de algumas taças as mesmas atacam a mesa de docinhos parecendo que estão no aniversário do Guanabara. Desde sempre a bebida e a dignidade são palavras rivais.

Talvez a solução para esse dilema seja como tudo na vida: se esforçar um pouco mais. Sinto que se me esforçar mais um pouquinho consigo ficar em duas taças, e assim consiga recusar a casquinha de siri, o camarão, o bobó, o vatapá…e assim não acabar no balcão do Outback pedindo um sorvete tamanho família, ou pior, perdendo a dignidade num casório de amigos e colocando em jogo o estilo de vida que tanto defendo para os outros. Sou daquelas que acham que um personal não pode ser gordo, vejo um e logo penso “um personal que precisa de personal? Se nem ele mesmo conseguiu um corpo bacana como ele pode me ajudar a ter um?”, então o jeito é tomar juízo e seguir o que prego. Temos que nos ajudar a seguir com fé e acreditar que nem sempre vai ser tão difícil levar uma dieta mais certinha. Dizem as boas línguas que com o tempo comer bem deixa de ser um fardo e passa ser algo prazeroso, só assim as duras dietas que seguimos serão algo normal. E nesse dia abençoado, beberemos só um pouquinho e olharemos a mesa de doces com desprezo e nossas dignidades continuarão intocadas. Sofremos tanto para chegarmos lá, que apenas dizer “não”, não basta. Precisamos dizer “não” com altivez e se os Deuses permitirem uma dose de arrogância. Sim, isso sim seria o paraíso.