Nosso artigo de hoje é um desabafo que uma paciente escreveu durante o nosso tratamento.
Achei tão sincero e sensível que pedi para ela para publicarmos! Afinal, quantas outras pessoas já não se sentiram assim?

Ontem me entreguei pra comida. Não era ela que estava sendo servida nas bandejas, era eu. Meu corpo foi oferecido à ela, e ele não teve escolha – foi refém da mente.

Ah, a mente… sei que ela tem boas intenções no fim das contas, mas é tantas vezes equivocada, impulsiva, compulsiva. A mente é a nossa maior sabotadora. Mas não é da mente que vem a vontade de mudar, e a motivação de seguir em frente?

Não, não mesmo. Essa é visceral, vem do coração, da garganta e da alma. No meu caso, vem também do estômago. E ontem, coitado, ele doeu. Quando eu cheguei em casa, depois de uns bons drinks e belisquetes, ele doeu.

Doeu porque comi muito? Acho que não. Já comi muito outras vezes na vida e ele não ficou assim. Ele doeu porque sabe que o que eu botei pra dentro de mim não alimenta meu corpo. Ele sabe que, na verdade, eu que fui engolida.

E não foi só ele, a pele também. Sentia minha dermatite piorar enquanto eu comia. Minha pele ficou em carne viva pelo próprio organismo, sem que eu tivesse usado minhas unhas pra isso. Parecia que a comida tinha me dado uma mordida.

Eu fiz isso pra que então? Eu só queria relaxar, e acabei mais tensa. Acabo de descobrir que relaxar é diferente de abandonar.

Seu corpo te pediu descanso? Tudo bem, ele merece às vezes. Mas escute com atenção, tente entender o que ele te pede. Com certeza ele não vai pedir que você o maltrate.

Meu corpo é meu templo, e ele merece respeito – não só dos outros, mas de mim mesma também.

Autora: Flora Dias