E se eu decidir jacar?

Atendo uma paciente que há um ano mudou seus hábitos alimentares, sem abrir concessões. Quando finalmente alcançou o corpo que queria, resolveu sair da dieta eventualmente. Começou com modestos jantares de família e percebeu que, nestes contextos, comia demais: ora conversava e não prestava atenção na sua saciedade, ora se rendia aos usuais exageros dos parentes. Perceber quais gatilhos a faziam comer de forma automática foi fundamental para retomar seu controle nestes eventos.

Depois do réveillon veio à terapia desesperada: recém-chegada de uma viagem relatou que há dois dias atacava a geladeira de casa de forma descontrolada. “Estou com medo de mim” – disse assustada. “Nada me fazia parar…” Perguntei como foi a viagem e como estava sendo voltar. Investigar o contexto destes episódios é fundamental: algum evento novo ou relevante? Algo está te incomodando ou angustiando? Após uma longa conversa ela diz, despretensiosamente, que nesta semana sairia o resultado do vestibular. E complementa com relatos da viagem: “Não pude ir a nenhum dos restaurantes que quis – fiquei frustrada e quando voltei não me segurei. Será que estraguei tudo?”

“Claro que não, você não faz isso todos os dias” – respondi.

É normal compensar momentos de restrição com comilanças exageradas, principalmente quando somado a algum fator externo estressante. O relato desta paciente é recorrente e o aproveito para dividir estratégias de como enfrentar este tipo de situação. Caso saia da dieta, não adote um padrão de pensamento “tudo ou nada”: “Ou faço dieta à risca ou estarei trapaceando e, neste caso, é melhor desistir.” E quando se sentir tentado a continuar comendo o que não deve, faça o seguinte:

  • Reconheça esse deslize e aceite;
  • Lembre por que quer tanto emagrecer e como seria sua vida caso estivesse mais magro;
  • Crie um limite simbólico – se permita comer 3 doces, por exemplo, mas quando cogitar comer o 4° lembre-se que estipulou um limite;
  • Fique atento a sentimentos de fracasso e desamparo que podem te fazer comer mais e mais.
  • Quando terminar sua comilança continue a comer normalmente depois e siga seu planejamento pelo resto do dia;
  • Use esta experiência para aprender: O que despertou esta vontade? Como foi sair da dieta? Ficou cercado de alimentos não planejados? Encontrou um estímulo inesperado? Alguém insistiu para que comesse?
  • Se for uma atitude consciente, assuma a “jacada” e escolha que alimentos valem a pena consumir e quais não valem.
  • Antes de cada evento/festa defina qual estratégia usar: vai beber álcool e comer de tudo? Vai só comer ou só beber? Ou esse é o tipo de evento que não vale a pena sair da dieta?
  • Não tenha medo dos seus exageros e desequilíbrios. Você não desaprendeu a fazer dieta ou invalidou todo o seu esforço: “jacar” faz parte do processo. Leva tempo para conhecermos as nossas medidas e, aos poucos, aprendemos a administrar a liberdade.