O artigo de hoje é o desabafo de uma mãe que Michele atende em seu consultório. Como ela, muitas mulheres abandonam suas vidas, seus projetos e a vaidade para se dedicar à família e à maternidade e depois se sentem perdidas! Esta é uma boa hora para pedir ajuda e se reencontrar!

Sempre fui popular, me cuidava, era paquerada e tinha status no trabalho. Não à toa me casei com o “gatinho” da turma. Malhava com personal, ganhava bem e sempre comprava roupas novas para ir nas festinhas da galera. Desde que nos casamos, parei com esta competição de querer sempre alcançar meu melhor e ser a mais bonita. Enfim poderia relaxar  já que achei alguém pra vida toda! Éramos tão parecidos, tínhamos a mesma visão de mundo, queríamos as mesmas coisas. Como duvidavam dos contos de fadas? Pensava que quem se separava não tinha dado a mesma sorte que eu, de achar um par tão parecido.
 
Meu marido tinha várias festas e gostava de beber até tarde. Aos poucos fui deixando de acordar cedo para malhar e “abri mão” da minha rotina, do personal e do abdômen sarado. Que sorte ter encontrado um grande amor! O romance, as festas e as viagens estavam cada vez mais intensas. Sabia que era amada, mas não me sentia tão desejada. Tudo bem…Aquilo nem me importava tanto, ao menos eu fingia que não.
 
Aos 35 engravidei do meu menino e, com ele, minha rotina ficava cada vez mais atarefada. Agora tinha os afazeres domésticos, meu trabalho e ainda precisava dar atenção àquele ser que agora era a razão do meu viver. Eu e meu marido nem sempre concordávamos sobre qual a melhor forma de educar, mas eu fazia “vista grossa”, afinal minha família era mais importante. Quando vi não tinha mais tempo de depilar, de fazer a unha e, muito menos de malhar. Minha vaidade não era mais tão importante: me realizava com a maternidade. Pelo menos, acreditei nisso. Meu casamento estava um pouco distante, mas eu era capaz de suportar, afinal o que faria se minha família se desmantelasse? Tinha feito minha escolha!
 
Sempre quis ter um casal e fui em frente. Mesmo não tendo mais uma vida sexual tão ativa, engravidei de novo e a profecia se concretizou: veio minha menina e com ela uma felicidade infinita. Que delícia a maternidade e, ao mesmo tempo, quantas ambigüidades. Meu corpo já não era mais o mesmo, meu cansaço aumentava a cada dia e entendi que, naquele momento, não daria conta de tudo. Novamente fiz minha escolha e não medi esforços para atender todas as solicitações daquele bebê. Adaptei toda minha rotina e vida a ele. Sem licença paternidade, logo meu marido voltou ao trabalho e eu cada vez mais só. É horrível se sentir sozinha na companhia de alguém e eu sentia um vazio cada vez maior. Sem saber lidar com ele, preenchi minha rotina com mais festas infantis, churrascos e ainda adotei um gato com a falsa ilusão de que, desta forma, minha família se pareceria ainda mais com um comercial de margarina. Meu casamento estava abandonado, realmente quando se tratava de educar nós não concordávamos. Eu estava abandonada: por ele e por mim. Àquela altura não tinha mais dinheiro para pagar o colégio das crianças e, ao mesmo tempo, investir no visual. No máximo ia no show do Caetano Veloso com a roupa de alguma amiga emprestada. Aonde havia me perdido? Meu casamento cada vez mais difícil. E se eu me separar? Com certeza depois de algumas semanas meu marido apareceria com outra. Ele que não amamentou e quase não engordou ao longo de todos estes churrascos, com certeza, não ficará sozinho. Que raiva! E se minhas crianças precisarem conviver com essa outra que nem sei a procedência? A verdade é que, desde a primeira gravidez, não me recuperei. Protelava minhas decisões em nome da família e agora nem sei mais por onde começar. Será que não é melhor eu ficar quieta? Vivo sem tempo e tenho tantas demandas que não consigo me achar. Preciso parar!