O meu emagrecimento não aconteceu de forma premeditada.  Apesar da insatisfação com meu corpo ser uma constante, (isso não tem fim, acredite) emagreci aos poucos, sem planejamento. Até hoje pergunto como tudo aconteceu.

Bem, a verdade é que sempre me achei gordinha. Sempre! Pra completar, minha mãe é judia, e pra quem não sabe, os judeus infelizmente confundem comida com afeto. Toda vez que as visitas comiam lá em casa, o comentário era geral “aqui não tem jantar, tem banquete”. Assim eu e minhas irmãs, lutávamos contra os excessos. Olhando para trás, vejo que varri a insegurança de gordinha para debaixo do tapete, e contornei o problema sendo a extrovertida da turma. O meu sucesso em encarnar uma persona desinibida, me deixou míope para o fato de estar cada vez mais rechonchuda. Fazendo de conta que o problema não existia, fui empurrando com a barriga a questão da balança.

Uma das irmãs contornou nossa criação de forma completamente diferente: era radicalmente controlada e mantinha um corpo atlético. Não entendia sua forma de ver o mundo. Enquanto voltava das noitadas, eu a via acordando para correr e pensava em como ela deveria ser infeliz.  Mal sabia que eu estava destinada a seguir esse caminho.

Tudo começou quando passei a morar sozinha em Ipanema. Demorei até administrar minha liberdade com maturidade. Como sempre fui esganada com comida, na minha primeira noite no novo apartamento, devorei uma torta de chocolate. Dediquei cada fatia à mamãe, que não me deixava comer doces à vontade. Aquela noite teve sabor de independência, mas também de autodestruição. O que estava querendo revidar? Desde então algo mudou.

Morar em Ipanema apenas acelerou este processo. O referencial de beleza era outro: corpos fibrados em busca das suas melhores versões. O bairro era muito mais exigente. Ser bonita em Ipanema é uma obrigação, não uma opção.

Um nível de exigência jamais visto antes por mim. Meu referencial era completamente diferente: os amigos me ofereciam a boemia e a família a comilança. Desconhecia aquela preocupação estética.

Sem pensar muito, entrei na academia. Corria a uma velocidade senil e definitivamente não queria estar ali. A amizade com os professores era um motivador, mas pequeno, se comparado a minha preguiça. Também fingia me esforçar numa musculação insignificante, porém suficiente para massagear meu ego de atleta – adorava contrair meu braço de forma a exibir um bíceps inexistente. Nos bastidores a alimentação seguia caótica. Por não ter um repertório de pratos vasto e nem light, fazia o que dava. No final das contas malhava para comer o que quisesse.

Gradativamente me inseri no contexto da malhação e estabeleci parcerias que me levaram para as corridas na praia. Até então, madrugar para mim era coisa de maluco. Mas o misto de cansaço e relaxamento que a corrida nos dá, vale o sacrifício. Confesso que ter companhia também facilitou. Evitava pensar muito, simplesmente agia.

O passo seguinte foi a meia maratona.  Insanidade, já que não estava correndo nem a metade disso. Este desafio exigiu que treinasse de forma mais intensa e focasse no meu emagrecimento, visto que seria insustentável correr 21 km com aquele peso. Apesar do medo da prova, o saldo foi positivo.

Sobrevivi à corrida e isto foi um divisor de águas. Minha cabeça precisou inventar motivos para não desistir. Apesar de ser psicóloga, e em tese saber o poder da mente, nunca tinha me sentido tão senhora de mim. Decidi escrever uma nova história e passei a acreditar que ter um corpo sarado também era permitido para mim. Passei a me responsabilizar totalmente pelo meu corpo e pela minha vida.

Redobrei o cuidado da alimentação e escolhi um planejamento alimentar que fosse totalmente viável. Dissociei dieta de passar fome e entendi, cada vez mais, a forma de combinar os alimentos. O assunto passou a me interessar e, quando vi, meu Instagram estava povoado por blogueiras fitness. Também contratei um personal e em pouco tempo entrei para a tribo do crossfit.

As restrições alimentares foram gradativas – os industrializados não foram cortados num primeiro momento. Participar dos eventos sociais sempre foi meu maior desafio e, com frequência, acabo com “os dois pés na jaca”. Não resisto a um bom vinho e nem a mesa de doces em casamentos.  Alguns alimentos têm o poder de relembrar nossas reações mais primitivas e nos convidam a agir de forma inconsequente. No meu caso, os doces tem esse poder. Quando vou a um casamento sinto que voltei dez casas no jogo da vida!

A rotina mudou aos poucos sem nenhuma pílula mágica. Todos comentavam sobre as mudanças e, se estivesse vendendo Herbalife, estaria rica. Nem sempre estou motivada, mas, independente do momento, a malhação é uma obrigação, como tomar banho, simplesmente faço.

Com alimentação é diferente, ainda sou adicta. Acho difícil me controlar, principalmente em viagens e festas. Criei estratégias que minimizam e evitam os estragos e quero dividí-las com quem também sofre. Me sinto desmotivada, impaciente e sem criatividade em muitos momentos. É difícil, mas existe um aspecto no ato de emagrecer que é extremamente prático e não pode ser relativizado. É a partir dos novos hábitos que a vida é reinventada. A ação traz à tona questões mais profundas: crenças limitantes e padrões familiares. Para transformar a relação com a comida é importante que isto também seja considerado.  Caso contrário, a perda de peso acontecerá de forma momentânea, se acontecer. As mudanças psicológicas e no corpo se influenciam mutuamente e uma não pode ser considerada consequência da outra. Não existem coadjuvantes nesta história.