Tenho ouvido de vários pacientes que mudaram seus hábitos para emagrecer o quanto se sentiram criticados pela família ou pelo grupo de amigos. De fato mudar dá trabalho e é recorrente enfrentarmos resistência do meio em que estamos por diversos motivos.

Quando melhoramos um aspecto, nosso grupo de convivência se sente instigado a progredir também e isso incomoda, porque nem sempre as pessoas estão preparadas ou querem. É como se nossos parentes ou amigos sentissem que estão “ficando para trás”. Esta semana atendi uma moça de 27 anos que me disse: “Michele, sou tão criticada pelo pessoal do trabalho quando deixo de acompanhá-los ao McDonald’s ou prefiro ir à academia a ir ao Happy Hour que parece que estou cometendo um crime. Às vezes me sinto louca, sabe? Quando digo que comecei uma nova dieta ou uma nova série na academia eles me olham com reprovação, como se não acreditassem que posso emagrecer e mudar!” Este tipo de relato é tão recorrente! Na verdade, a postura do pessoal do trabalho não tinha nada a ver com minha paciente, mas, sim, com o próprio grupo. Para eles, acreditar na mudança dela seria reconhecer que existem outras possibilidades para as suas vidas também.

Eu sugeri que ela faça também amigos novos, que tenham os mesmos objetivos que ela – só assim não se sentiria uma E.T.

Quando eu comecei a emagrecer, era vista como anoréxica pela minha mãe. Já dividi em outros textos que a fartura sempre foi a marca registrada da família. Tenho 3 irmãs e, mesmo com meu emagrecimento, uma delas continuava sendo bem mais magra que eu. Nunca entendi por que estaria eu com a fama de anoréxica se havia um referencial de magreza bem mais forte em casa. Aquilo me instigou e percebi que, no final, ninguém esperava que eu assumisse o papel de magra, porque sempre fui a gordinha animada da família. Todo grupo tem suas regras e seus contratos implícitos e cada integrante ocupa um determinado lugar. Quando alguém muda, passa a ocupar um lugar diferente, isso incomoda porque os demais precisarão ocupar lugares diferentes também e, nem sempre, estão dispostos. É como se sua mudança forçasse uma dança das cadeiras no grupo, porém nem todos querem dançar! E por isso criticam: é mais fácil permanecer sentado no mesmo lugar!

É fundamental encontrar grupos que acompanhem seus progressos, que queiram evoluir junto, mas sabemos que nem sempre é possível. Quando não encontrar a compreensão de alguns, não nutra expectativas frustradas. Entenda que se trata de uma limitação do outro. Siga seu caminho e aceite que reciclar hábitos, muitas vezes, significa reciclar pessoas também!