Amigas (in)separáveis Renata e Gisele se conheceram na pós e sempre tiveram muitas coisas em comum: mais ou menos o mesmo porte, o mesmo sobrepeso, além do mesmo tipo de lazer: bebedeiras e saídas noturnas para os principais botecos da região. Viam-se cada vez mais, a intimidade crescia e partilhavam dos mesmos casos de amor não correspondidos. Eram figurinhas certas nos principais sambas da cidade, rodeadas de uma boa cerveja e gargalhadas altas. Aliás, existe este estereótipo de que as gordinhas têm que ser animadas, felizes ou sensuais, uma vez que precisam atrair as pessoas de alguma forma. Certo ou errado, elas vestiam direitinho esta carapuça.

Renata começou a malhar. Elas que faziam quase tudo juntas agora tinham um detalhe diferente na rotina: a academia de manhã. Enquanto uma dormia a outra ia cheia de má vontade se exercitar. O que começou como um detalhe foi se transformando num divisor de águas para esta amizade. Agora com as amigas da academia, Renata começou a participar de corridas, trilhas e programas diurnos. Gisele, por sua vez, manteve sua rotina de boemia: saía, bebia e acordava tarde. No início continuavam tentando se ver: apesar do sono, Renata se forçava a acompanhar Gisele que começava a se arrumar às 22h para sair. Quanto mais saía à noite, menos Renata conseguia acordar para malhar no dia seguinte. Nada foi dito entre elas e naturalmente começaram a se afastar.

Tentaram ainda alguns resgates: um almoço no japonês, um programinha diurno, mas os interesses eram opostos – como se falassem dialetos diferentes. Era difícil até de conversar, porque no fundo, uma julgava a outra. Apesar de todo o carinho que existia, Gisele – como boa feminista e questionadora dos padrões sociais – não entendia que graça tinha malhar na Bodytech com todas as patricinhas da Zona Sul ao som de Hip Hop. Achava ela uma chata, xiita que nunca podia beber nem comer nada. Ao mesmo tempo via a amiga emagrecer e se sentia aquém. Ressentia disso. Tentava copiar alguns hábitos, pedia receitas fit, mas era muito esporádico para se tornar uma mudança efetiva. Um lado seu queria estar vivendo aquilo, mas sentia um mix de preguiça com não saber por onde começar.

Renata também tinha sentimentos antagônicos por Gisele: ao mesmo tempo que a queria por perto, não se conformava de a amiga não fazer nada para mudar sua condição. Era como se Renata tivesse cruzado uma fronteira e acessado um ponto de vista diferente sobre a vida e queria sacudir Gisele e mostrar esta realidade. No fundo ela sabia que não adiantava falar, o acesso a este novo mundo é totalmente silencioso e apenas alguns o enxergam. Convencê-la a assumir sua melhor versão era impossível através de argumentos racionais. Renata sentia-se impotente e tinha raiva da falta de visão da amiga. E quanto mais ela saía para beber a noite, mais Renata achava aquilo tudo uma grande fuga. O carinho continuava ali, porém tinham um contrato implícito de sempre se procurar, mas nunca de fato se encontrar. Quem sabe quando tiverem filhos voltam a se aproximar?